Brasil mantém título de campeão mundial de homicídios de homossexuais

20 Maio, 2008

Marcelo e Valquíria: ‘Educação é o caminho para resolver problema’

Eles eram professores, vendedores, estudantes, cozinheiros ou cabeleireiros do sexo masculino. Pelo menos 88 pessoas com esse perfil comum foram mortas no Brasil dentro de casa ou na rua em 2007 apenas por serem gays e assumir publicamente sua sexualidade. Outras 34 pessoas foram assassinadas no mesmo período por serem travestis. O número total de 122 homicídios de homossexuais registrados em um ano representa um aumento de 30% com relação aos registros de 2006 e dão ao Brasil o triste título de campeão mundial em crimes desse tipo, muito distante do México, que aparece em segundo lugar com 35 mortes, e dos Estados Unidos, terceiro, com 25. A Bahia, com 18 casos, é estado com maior incidência desse tipo de crime. A região Nordeste concentra 2 entre cada 3 homícidos cometidos contra homossexuais no Brasil. Em 2007, foram 81 assassinatos. Somente nos quatro primeiros meses de 2008, já foram registrados 43 casos no Brasil, sendo 4 deles na Bahia. Os números foram apresentados na tarde desta quinta-feira, 15 de maio, por Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), em entrevista coletiva durante as comemorações pelo Dia Internacional Contra a Homofobia, que ocorre no próximo sábado, 17 de maio. Além da coletiva, o dia foi marcado por uma sessão especial na Câmara Municipal de Salvador e uma manifestação na Praça Thomé de Souza.Para o militante, a principal motivação dos assassinos seria a estranheza que ainda causa na sociedade a atração por pessoas do mesmo sexo. ‘Os meninos ainda são criados, desde o berço, para sempre demonstrarem virilidade, enquanto meninas para ser sempre doces e meigas’, afirma. Apesar de alarmantes, acredita-se, no entanto, que o número real de crimes possa ser muito maior, pois os dados estão baseados somente em pesquisas em jornais e internet feitas pelos coletivos GLBTs nos estados, já que não há estatísticas oficiais sobre o assunto. Além disso, não estão computados os assassinatos ocorridos no Rio Grande do sul, Amapá, Rondônia e Roraima, estados onde não é feito esse tipo de levantamento. Cerqueira explica que trabalhar contra esse tipo de ocorrência é uma das principais atribuições do GGB. No entanto, ele destaca que o grupo se preocupa também com outra forma de homofobia, que é aquela exercida pelo próprio indivíduo homossexual. “O primeiro caso é o da homofobia externa, sofrida na rua, no trabalho, no dia-a-dia. O segundo é aquela em que a pessoa se reconhece como gay, mas não se aceita, o que traz graves conflitos internos”, explica. Para a presidente do Grupo Palavra de Mulher Lésbica, Valquíria Costa, mesmo representando apenas 3% do total de vítimas de homicídio registradas no ano passado, as mulheres também sofrem com o preconceito homófobo. “A sociedade só aceita ver duas mulheres de mãos dadas se forem amigas. Isso causa uma total negação da sexualidade da lésbica”, diz. Ela critica ainda a visão de que um casal lésbico faz parte do imaginário erótico masculino, o que é igualmente nocivo para elas.SOLUÇÕES – Tanto Valquíria quanto Cerqueira acreditam que a educação e o investimento em conscientizaçã o são as únicas vias possíveis para a redução da homofobia e do número de crimes registrados no Brasil. “E para isso precisamos de investimento dos governos. O trabalho voluntário é muito importante, mas sozinho não sustenta a nossa luta”, sentencia Cerqueira. Quanto aos cuidados individuais que devem ser tomados pelos próprios gays e lésbicas, Marcelo e Valquíria alertam que não devem levar pessoas desconhecidas para casa. Segundo eles, é comum homens se arrependerem de passar a noite com alguém do mesmo sexo e reagirem de forma violenta. “Isso sem contar os casos em que alguém se aproveita do convite para roubar e matar o parceiro”, avisam. SERVIÇ O – O Grupo Gay da Bahia e o Grupo Palavra de Mulher Lésbica prestam atendimento àqueles homossexuais e travestis que se sentirem discriminados em Salvador.

Fonte: Guilherme Lopes, do A Tarde On Line.


[13/05, 120 anos da Lei Áurea] Negro ainda vive em região de porto, diz IBGE

13 Maio, 2008

13/05/2008 – 08h21

da Folha Online

Reportagem de Eduardo Scolese e Angela Pinho, da Folha de S.Paulo, publicada na edição desta terça-feira (íntegra disponível para assinantes do jornal ou do UOL) revela que a distribuição da população negra no Brasil reflete ainda hoje a ocupação do país durante o período da escravidão. Os dados são de um estudo feito pelo IBGE a pedido da Secretaria Especial da Igualdade Racial da Presidência da República.

De acordo com a reportagem, “a partir dos dados do Censo de 2000, os pesquisadores apontaram uma coincidência entre a alta concentração de população negra [pretos e pardos autodeclarados ao IBGE] e os portos que atuaram como receptores de escravos: São Luís [MA], Salvador [BA], Recife [PE] e Rio de Janeiro [RJ]“.

O trabalho do IBGE “aponta ainda a permanência dos negros em regiões para as quais eles se deslocaram de acordo com o desenvolvimento da economia durante a escravidão, como o litoral nordestino e o interior do Maranhão e do Piauí”.

Hoje, em cerimônia no Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva receberá o mapa das mãos do ministro. Sob Lula, será a primeira vez que o 13 de Maio será tema de solenidade oficial. Há, no movimento negro, correntes que não vêem motivos para comemorar essa data, pelo fato de, segundo eles, a Lei Áurea, assinada 120 anos atrás pela princesa Isabel, não ter abolido de fato a escravidão no Brasil.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u401235.shtml


[13/05, 120 anos da Lei Áurea] Pró-Cotas / Anticotas

13 Maio, 2008

pró-cotas

“Falta muito para inserir negro na sociedade”

DA REPORTAGEM LOCAL

Militante do movimento negro desde os anos 70, o negro Carlos Alberto Medeiros, 60, é um dos signatários do documento que será entregue hoje no STF. Presidente do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, ele é um entusiasta da política de cotas raciais. “Já conquistamos, do ponto de vista das leis, direitos iguais para os negros. Está consagrado na Constituição de 1988″, diz. “Mas ainda falta muito para a inserção real do negro na sociedade. O negro que freqüenta uma boa escola, por exemplo, ainda é barrado pela discriminação do mercado de trabalho”, afirma.
Segundo Medeiros, os adversários das cotas, signatários do manifesto “113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, servem de fachada para interesses egoístas e racistas. “Nós não podemos mais nos restringir à denúncia de discriminação contra os negros. É preciso apontar formas reais de superação.”
Medeiros lembra que, quando o Movimento Negro Unificado foi fundado, em 1978, havia o caso de quatro atletas negros de uma equipe mirim que haviam sido proibidos de entrar no Clube de Regatas Tietê por causa da cor da pele. “Se a diretoria aceita um sócio de cor e ele entra na piscina, na mesma hora, cem sócios deixam o clube”, chegou a declarar um conselheiro do clube. “Hoje, ofensas como essa são raras porque os negros adquiriram consciência de seus direitos e o preconceito se sofisticou”, diz.
“Se demos grandes saltos, porém é impossível deixar de reconhecer que, entre um trabalhador negro e outro branco, com igual qualificação, a vaga de emprego tem grandes chances de acabar com o branco. Combater a discriminação exige enfrentar a questão racial. Não fazê-lo só serve para os verdadeiros racistas manterem tudo como está”, diz Medeiros.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1305200820.htm

anticotas

“Isso só servirá para pôr um pobre contra o outro”

DA REPORTAGEM LOCAL

Militante do movimento sindical desde os anos 80, o negro José Carlos Miranda, 43, é um dos signatários do manifesto “113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, que se opõe à política de cotas: “Eu moro em um bairro pobre e considero um absurdo admitir que uma vaga de emprego disputada por dois miseráveis seja dada a alguém por um critério de cor da pele. Isso só servirá para colocar um pobre contra outro e para deixar patrões e governos de mãos livres para seguir em sua política de total irresponsabilidade social”.
“Discordo totalmente dessa tentativa de racialização da sociedade brasileira. A sociedade não é dividida entre negros e brancos e sim entre exploradores e explorados.”
Segundo Miranda, “o que impede, por exemplo, os negros de entrarem nas boas universidades não é a raça. É a renda. São os negros com renda mais elevada que entram na universidade, seja pelas cotas, ou não. Essa é a prova de que a exclusão se dá pela pobreza, independentemente de cor”.
“A cota racial, na medida em que cria privilégios para os negros, abre uma fissura racialista que não existe atualmente”, diz ele. “Nunca houve, no Brasil, essa idéia segregacionista de bairro negro, como foi o Harlem, em Nova York. Para quê copiar essas coisas?”
Para o sindicalista, o aumento da presença de negros nas universidades deveria ser feito pela melhoria da escola pública. “Enquanto as escolas públicas de ensino fundamental e médio forem a sucata educacional que são hoje, não são só os negros que serão impedidos de chegar às universidades de qualidade. Também os alunos brancos e pobres ficarão sempre de fora.”
“Não será com a criação de privilégios para estudantes com cor de pele negra que se resolverá o problema da exclusão social”, diz ele.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1305200819.htm