Preconceito implícito

18 Abril, 2008


Mahzarin Banaji mostra percepções distorcidas que raramente admitimos ter

Mahzarin Banaji brigava com o projetor de slides quando começaram a entrar no auditório os executivos do New Line Cinema – o estúdio de cinema de Los Angeles que produziu a trilogia Senhor dos anéis. Eles não pareciam muito animados. Haviam sido informados de uma palestra sobre diversidade que incluiria alguns vídeos. “Minha expectativa era de tédio total”, admitiu Camela Galano, a presidente da empresa.

No intervalo, no entanto, amontoaram-se em torno da palestrante não só os executivos da New Line como também vários outros da HBO (ambas as empresas são subsidiárias da Time Warner). A psicóloga social da Universidade Harvard começara a palestra com uma série de imagens que denunciavam alguns truques da mente. Um dos vídeos mostrava um grupo de pessoas trocando passes de basquete. Dos 45 espectadores, apenas um percebeu a mulher que andava lentamente pelo meio do grupo carregando um guarda-chuva branco aberto. Depois de mais alguns exemplos, Banaji convenceu-os de que esse tipo de engano de percepção ocorre o tempo todo, sobretudo em atitudes inconscientes.

“É compreensível e racional”, disse Banaji à platéia. “E é um erro.” Segundo ela, nós até podemos querer ser justos, mas a mente trabalha a despeito de nossa vontade, fazendo conexões e ignorando informações contraditórias. De fato, em um teste rápido, os executivos rapidamente associaram palavras positivas à empresa à qual estão ligados, a Time Warner. Em contrapartida, tiveram dificuldades de fazer o mesmo em relação à Walt Disney – a principal concorrente. E ficaram espantados ao descobrir a mesma tendência em relação a faces humanas. Termos positivos foram associados às feições européias; os negativos recaíram sobre as de ascendência africana.

Banaji estuda atitudes implícitas e seus efeitos sociais desde o fim dos anos 80, quando foi trabalhar na Universidade de Washington com o grupo de Anthony Greenwald, o criador do primeiro teste de associação implícita (IAT, na sigla em inglês). Ele começou medindo a rapidez com que as pessoas apertavam teclas no computador em resposta a coisas que apareciam na tela. Como previsto, elas associavam palavras positivas, como “feliz” ou “paz”, a imagens de flores; palavras negativas, como “podre” e “feio”, perfilavam-se ao lado de insetos. O passo seguinte foi testar palavras e imagens associadas a etnias. Observou-se que as reações automáticas dos participantes não estavam de acordo com a postura que eles afirmavam ter. Dentre as metodologias usadas na pesquisa em psicologia social, “o IAT decolou rapidamente”, recorda-se Greenwald.

Nos anos seguintes, Banaji, Greenwald e um terceiro colaborador, Brian Nosek, da Universidade da Virgínia, continuaram inventando novas formas de utilizar o IAT e outras ferramentas para pesquisar a Natureza, as origens e a dinâmica do preconceito. Para entender como os grupos sociais chegam a temer uns aos outros, Banaji se associou a neurocientistas e combinou técnicas clássicas de condicionamento pelo medo, medidas de atitude implícita e a descrição das pessoas sobre relacionamentos inter-raciais. Seus planos agora incluem a colaboração com primatologistas para investigar a predisposição de nossa espécie para a construção de desvios na percepção.

Segundo Banaji, o preconceito é comum, está oculto e continua ativo fora do plano consciente, mesmo em pessoas com visão de mundo genuinamente igualitária. Ao dar-se conta do poder das atitudes inconscientes nas tomadas de decisão no dia-a-dia, o grupo decidiu levar isso a público. Qualquer pessoa pode realizar os testes pela internet (implicit.harvard.edu/implicit) e descobrir, por exemplo, se prefere inconscientemente o novo ao velho, o magro ao gordo. O site contém ainda IATs que incluem associações entre países e culturas, como Índia/hindus e Paquistão/muçulmanos.

Pelo menos 2 milhões de internautas já passaram pelos testes online, e muitos têm contribuído com sugestões. “É preciso ouvir o que as pessoas têm a dizer; e as idéias delas são brilhantes”, conta Banaji. Isso a incentivou a se aventurar a falar sobre preconceito além dos limites do laboratório. Usando humor, inteligência e simpatia, ela vem alertando executivos sobre os equívocos causados por preconceitos arraigados.
O IAT já foi citado como ferramenta de pesquisa em cerca de 300 artigos, em áreas que vão das neurociências ao marketing. Também foi motivo de debates, nos quais alguns psicólogos atribuíram à equipe de Banaji a extrapolação inadequada dos resultados. Alguns críticos insistem que o teste não mensura realmente o preconceito inconsciente, apenas um conhecimento cultural que difere do verdadeiro racismo. Para certos psicólogos, a questão está além dos mecanismos cognitivos subjacentes. Um estudo revelou que algumas pessoas demonstrarão preconceito só porque temem demonstrá-lo.

Depois de uma metaanálise que incluiu 61 estudos, Greenwald e Banaji concluíram que a validade do IAT permanece. A ferramenta foi capaz de prever julgamentos, comportamentos e reações fisiológicas relacionadas a estereótipos e preconceitos melhor que atitudes expressas. “Na minha área específica, que é o preconceito sutil, o IAT ajudou a cristalizar idéias sobre as quais discutíamos havia anos”, explica Jack Dovidio, da Universidade de Connecticut. Para Susan Fiske, da Universidade Princeton, a genialidade de Banaji foi perceber o impacto potencial do IAT em assuntos do mundo real. “Quando os usuários vêem o próprio desconforto e lentidão para fazer associações, é difícil ignorar a mensagem.”

Mais recentemente, Banaji buscou discernir em que momento as posturas racistas se formam e as crenças conscientes começam a divergir daquelas submersas em alguma parte do cérebro. Usando versões infantis do IAT, ela comparou as respostas entre crianças orientais do Japão e ocidentais (brancas) da Nova Inglaterra. Aos 6 anos, ambos os grupos preferiram, tanto aberta quanto implicitamente, pessoas parecidas com elas mesmas. As atitudes conscientes e inconscientes começaram a se distanciar por volta dos 10 anos de idade. Ainda que tenham expressado posturas mais igualitárias à medida que cresciam, os dois grupos demonstraram preconceito implícito em relação a rostos negros. Para as crianças japonesas, tanto as atitudes implícitas quanto as explícitas tornaram-se mais positivas para com faces européias.

Banaji suspeita ser possível encontrar preconceito em bebês, o que não quer dizer que nascemos preconceituosos. “Certamente temos o maquinário mental necessário para generalizar e hierarquizar categorias sociais, mas a cultura preenche com a informação necessária.” E os humanos absorvem idéias sobre status racial bem cedo. Um estudo com 234 crianças americanas de ascendência hispânica revelou que elas se comparavam favoravelmente em relação às afro-descendentes. No entanto, quando comparadas às crianças brancas, a preferência natural por seu grupo desmoronou. “Esse trabalho sugere que o que valorizamos, o que achamos bom, está completamente no ar”, diz Banaji. Isso talvez se desenvolva por meio de advertências que os pais transmitem aos filhos, como um aperto mais forte na mão da criança. Uma vez adultos, continuamos a observar nosso ambiente e adaptamos, de forma não intencional, os estereótipos que temos para que se combinem.

Felizmente, parece que nosso cérebro não está permanentemente atado ao preconceito. Embora sinais culturais poderosos apontem para uma direção, a consciência, os relacionamentos próximos e a experiência podem nos levar a outra. Banaji, Greenwald e Nosek criaram uma organização sem fins lucrativos para ajudar as pessoas a aplicar esses conhecimentos. “Se trouxermos a consciência para o dia-a-dia, poderemos ajudar as atitudes conscientes a assumir o comando. É como exercitar-se regularmente ou comer de forma saudável”, diz a psicóloga.

Mahzarin Banaji Nascida na Índia e devota do zoroastrismo, ela diz que teve “muito mais liberdade que outras garotas indianas para conhecer os labirintos da mente”. O dualismo que caracteriza a religião de origem persa hoje ressoa nas distinções entre bem e mal que a psicóloga propõe aos participantes das pesquisas.