Parada Hétero pede “liberdade” e critica dinheiro público na Parada Gay

21 Junho, 2007

17/06/2007 – 17h46

SÉRGIO RIPARDO
Editor de Ilustrada da Folha Online

Uma família de classe média do ABC paulista e seus amigos fizeram, na tarde deste domingo (17), a primeira “Parada do Orgulho Heterossexual” de São Paulo, na calçada do vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo), na av. Paulista. O “movimento” foi convocado, no começo da semana, por uma comunidade homônima no Orkut, site de relacionamentos. Os participantes querem apoio oficial para montar shows e já brincam planejando bater “recorde” em 2008.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Parada do Orgulho Hétero quer também apoio da Prefeitura de SP para montar show no Masp
Parada do Orgulho Hétero quer também apoio da Prefeitura de SP para montar show no Masp

Criticado por organizar a iniciativa, uma semana após a realização da Parada Gay, o grupo esclareceu que pretende apenas defender a liberdade de expressão, sem nenhum tipo de apoio à homofobia. Mas houve críticas ao apoio oficial do governo à Parada Gay.

“Temos amigos gays que fazem parte de nossa comunidade do Orkut e dão seu apoio à nossa idéia de defender o orgulho heterossexual”, conta um dos organizadores, Cristiano Vicente, 20, professor de inglês e estudante de design na faculdade privada Anhembi Morumbi.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Estudante de design e professor de inglês Cristiano Vicente, 20, organiza Parada Hétero
Estudante de design e professor de inglês Cristiano Vicente, 20, organiza Parada Hétero

Internautas e universitários

Com apoio de sua família, que mora em São Bernardo do Campo (Grande SP), ele organizou a parada heterossexual com o amigo Luis Fernando, 20, estudante de publicidade da Universidade Metodista. “A idéia surgiu durante conversas sobre a Parada Gay”, afirma Fernando, que adotou como símbolo do movimento uma placa de banheiro com imagens de bonequinhos dos dois sexos.

Na comunidade do Orkut, eles receberam mais de 200 apoios à iniciativa. Por volta das 16h, havia menos de 15 pessoas (homens, na maioria) com o grupo, na calçada do Masp. Mas os organizadores disseram que alguns participantes estavam atrasados e que o “número oficial” da parada seria de 30 pessoas. A primeira Parada Gay reuniu um público estimado em 2.000 participantes, em 28 de junho de 1997.

A concentração estava marcada para 15h. O grupo estendeu uma faixa com a mensagem “1ª Parada do Orgulho Hétero – muitos são, poucos se orgulham”. No momento da Parada Hétero, ocorria a tradicional feira de antigüidades do vão do Masp –um comerciante da feira manifestou apoio à iniciativa, considerando apenas uma “brincadeira dos jovens”.

Mãe de Cristiano, a gerente administrativa Eliana Brykcy, 46, diz que o “movimento é sem preconceito” e que o grupo recebeu críticas também de alguns heterossexuais. Sobre a falta de público relevante para a iniciativa, eles citaram a “preguiça” de se sair aos domingos, que o evento foi convocado em cima da hora e que faltou divulgação pela mídia tradicional. O dia estava ensolarado –o termômetro do Masp marcava 29ºC.

Sérgio Ripardo/Folha Online
No vão do Masp, Parada Hétero tenta atrair a atenção do público de feira de antigüidades
No vão do Masp, Parada Hétero tenta atrair a atenção do público de feira de antigüidades

Cartilha de drogas

Participante da parada, o arquivista Brando Brito, 35, menciona o caso da cartilha sobre o uso de drogas para criticar o apoio da Prefeitura de São Paulo à Parada Gay, um dos principais eventos do calendário turístico da cidade.

“Foi usado dinheiro dos impostos que todo mundo paga para elaborar uma cartilha ensinando a usar drogas. Isso está errado”, diz Brando.

Entidades ligadas ao movimento de diretos dos homossexuais defenderam a cartilha por contribuir para a política de redução de danos, pela qual a divulgação de cuidados sobre o uso de drogas é positiva para minimizar problemas. Já algumas autoridades policiais acham que essa política incentiva o consumo e favorece o tráfico de drogas.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Jovens participam de Parada Hétero no Masp; eles querem shows e dançarinas em 2008
Jovens participam de Parada Hétero no Masp; eles querem shows e dançarinas em 2008

Shows e casal de dançarinos

Os organizadores da Parada Hétero dizem que esperam a permissão da prefeitura para realizar, no próximo ano, shows no vão do Masp para atrair mais público. Eles cogitam até colocar um casal de dançarinos (homem e mulher) para animar o ambiente. “Queremos dobrar o número de público no próximo ano e comemorar o recorde”, afirma Eliana, que defende também a criação por lei do Dia do Orgulho Hétero.

A estudante Viviane Vicente, 24, filha de Eliana, conta que a comunidade no Orkut atraiu internautas de outros Estados, como Rio, Bahia e Rio Grande do Sul. Por enquanto, não há casos de namoro surgidos na comunidade. “Mas isso pode ser uma conseqüência natural”, diz Cristiano, que também é guitarrista da banda Radio Ska.

Fonte:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u305080.shtml


Escola pergunta se aluno é homossexual

17 Junho, 2007

16/06/2007 – 11h10

DANIELA TÓFOLI
AFRA BALAZINA
da Folha de S.Paulo

Perguntas como “Dorme com algum adulto?”, “Já viu alguém pelado?” ou “Beija na boca de alguém?”, dirigidas a crianças que estudam em escolas municipais ou estaduais de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, chocaram os pais da cidade.

Diante de inúmeras queixas, a prefeitura decidiu suspender a aplicação dos questionários, que tinham o objetivo de descobrir se as crianças são vítimas de agressões físicas ou sexuais, de bullying (brincadeiras maldosas praticadas pelos colegas) ou são usuárias de drogas.

Preparado em quatro versões (para a educação infantil, para turmas de 1ª a 4ª séries, para as de 5ª a 8ª e para o ensino médio) por uma rede de entidades, entre elas o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente da cidade e a Vara da Infância, os questionários têm perguntas que vão desde “Com quem você toma banho?” ou “Que brincadeiras faz com seu irmão?”, no caso das crianças menores, até “Você é heterossexual ou homossexual?”, para as maiores.

A dona-de-casa Débora Inácia Alfano, 37, tem uma filha de 4 anos na Emei Octávio Pegão e não gostou das perguntas feitas. Seu marido respondeu ao questionário com a menina e entregou ontem à escola.

“Eu achei que havia muita pergunta a respeito de sexo. Para crianças dessa idade, achei muito complexo. Eles não entendem direito, é um assunto delicado”, afirmou.

Com as reclamações dos pais, a Prefeitura de São Caetano decidiu suspender a pesquisa. De acordo com o prefeito José Aurichio Júnior (PTB), a administração municipal nunca concordou com a aplicação do questionário. “Fomos contrários desde o primeiro momento que surgiu a idéia”, disse.

Para ele, o questionário é “confuso e mal elaborado” e pecou em seu caráter técnico e jurídico. “Só voltaremos a aplicar o questionário se houver uma ordem judicial”, disse.

Em nota oficial divulgada ontem, a Diretoria de Educação da cidade afirmou ter sido contrária ao formato e conteúdo da pesquisa, mas permitiu sua realização em respeito às entidades que o elaboraram desde que os pais autorizassem a participação dos filhos.

Entretanto, o autônomo Sérgio Donizeti, que tem uma filha de 16 anos, disse que não foi consultado pela escola em que ela estuda, a Alcina Dantas Feijão, sobre o questionário.

“Como responsável por ela, gostaria de ter sido avisado com antecedência”, afirma.

A Secretaria do Estado da Educação, por meio de nota, informou que “não foram as escolas de São Caetano que decidiram buscar informações sobre a vida sexual dos alunos, mas o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, cujo teor das perguntas foi aprovado pela Vara de Infância e Juventude do município”.

A pasta diz ainda, no texto, que “as escolas de São Caetano não são responsáveis pelos questionários”.

Elaboração conjunta

Os questionários foram distribuídos pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente da cidade, mas sua elaboração foi conjunta.

“O Conselho Tutelar, a Vara da Infância, ONGs, diretores de escolas, policiais, agentes de saúde e pais construíram o questionário junto conosco”, explica a presidente do conselho municipal, Rita Margarida Toller Russo. “Nosso objetivo era levantar dados ligados a questões como agressão, bullying e drogas para trabalhar melhor esses problemas.”

Para especialistas, a iniciativa é excelente. O problema está na abordagem.

A pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, professora da PUC-SP, diz que é preciso que a escola se preocupe com esses assuntos, já que os casos de agressão são cada vez mais comuns, mas as crianças devem ser preparadas antes do questionário e os pais, avisados.

“Quando se lida com a questão sexual, se lida também com tabu e preconceito”, afirma Ângela. “É preciso fazer uma abordagem cuidadosa.”

O psicoterapeuta José Thomé, da Associação Brasileira de Psiquiatria, afirma que não é possível fazer uma pesquisa deste tipo pedindo que alguém responda por protocolo.

“É uma questão muito íntima, que precisa ser abordada por pessoas treinadas. Não é função do professor fazer esse trabalho”, diz. “Além disso, o limite entre o patrulhamento ideológico-afetivo e uma pesquisa é muito estreito. O cuidado tem de ser redobrado.”

Fonte:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u304929.shtml


Pesquisa diz que árbitros da NBA têm preconceito

8 Junho, 2007

03/05/200710h31

ADALBERTO LEISTER FILHO
da Folha de S.Paulo

A propalada democracia racial da NBA foi posta em xeque por estudo da Universidade da Pensilvânia. Justin Wolfers, professor de políticas públicas, e Joseph Price, estudante de economia, mostraram que arbitragem de brancos pode influenciar o resultado de partidas disputadas por jogadores predominantemente negros.

Juízes brancos tendem a dar mais faltas contra negros do que contra caucasianos. Por outro lado, a arbitragem de negros costuma marcar mais infrações contra jogadores brancos, embora essa segunda tendência seja menos acentuada.

A diferença na marcação das faltas é, de acordo com os pesquisadores, “grande o suficiente para que a probabilidade de um time vencer seja afetada pela composição racial dos árbitros que irão dirigir a partida”.

Segundo os números levantados, os negros fazem entre 0,12 e 0,20 mais faltas quando os três juízes são brancos –isso representa um aumento entre 2,5% e 4,5% nas marcações.

O resultado do trabalho, que examinou as temporadas entre 1991 e 2004, foi publicado no “New York Times”. Nesses campeonatos, foram computados cerca de 600 mil marcações de falta da arbitragem.

O estudo demonstrou também que outros fundamentos estatísticos, como pontuação ou marcação de violações, estão diretamente relacionados à cor da pele de jogadores e árbitros.

“A performance do atleta parece cair em todas as estatísticas quando há uma larga oposição racial com a arbitragem”, reportam Wolfers e Price.

Especialistas dos EUA em questões raciais que examinaram o estudo acreditam que o preconceito subliminar possa ter contaminado a principal liga de basquete do planeta.

David Berri, professor da Universidade Estadual da Califórnia, diz que a NBA espelha o que já acontece fora da quadra.

“Dado que a liga tem preponderância de afro-americanos, talvez fosse bom que houvesse mais árbitros afro-americanos. Pelo mesmo motivo, não é aconselhável que seja escalada força policial branca para a vigilância em bairros negros.”

Ian Ayres, professor de direito da Universidade de Yale, diz que as conclusões da pesquisa não causam estranheza.

“Estaria surpreso se não existisse preconceito. Há um consenso crescente de que uma proporção grande de decisões não acontece por discriminação racial consciente. É freqüentemente dirigida de forma inconsciente”, explica ele.

“Quando você força as pessoas a tomarem decisões, elas não podem evitar, mesmo que de forma subconsciente, tratar negros diferente de brancos, homens diferente de mulheres”, complementa o professor.

Envolvidos no campeonato preferiram ficar distantes da polêmica. Os treinadores Doc Rivers, do Boston, e Maurice Cheeks, do Philadelphia, ambos afro-americanos, não quiseram comentar o assunto.

Já Mark Cuban, dono do Dallas e mais controverso dirigente da NBA, disse que todos têm preconceitos. “Somos humanos”, ponderou o dirigente.

Porém Cuban preferiu não se pronunciar sobre possível preconceito racial na quadra.

David Stern, homem-forte da NBA, apressou-se em contrariar as conclusões do estudo. Segundo ele, a liga levantou números que provam o contrário.

“Acreditamos que nossos dados são mais convincentes e completos. E eles mostram que não há preconceito”, defende.

Joel Litvin, presidente de operações da NBA, foi além. “Essa pesquisa está errada. Pelas estatísticas, eles só podem computar as decisões coletivas dos três árbitros que atuaram na partida. Somos capazes de analisá-las individualmente.”

Os dados foram coletados nos campeonatos disputados entre 2004 e 2007 e incluiriam cerca de 148 mil marcações dos árbitros. Litvin, porém, eximiu-se de apresentar os números individuais, pois isso afetaria o acordo de confidencialidade que há entre os árbitros.

Fonte:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u115271.shtml